A primeira exibição pública de cinema aconteceu em 28 de dezembro de 1895, em Paris, promovida pelos irmãos Lumiére. No início eram mostrados filmes curtos, em preto e branco, com a câmera parada e sem som, e ainda assim esses filmes emocionavam a plateia. Um exemplo foi o primeiro filme exibido pelos irmãos Lumiére, de um trem chegando à estação. O público ficou assustado, achando que a projeção era real.
O cinema se desenvolveu e surgiram os principais movimentos de cinema europeus, o Expressionismo Alemão, Avant-Garde Francesa, Experimentalismo Soviético, Neo-Realismo Italiano, Impressionismo e Surrealismo. Chegamos a época atual com os Blockbusters, em que os efeitos especiais ampliam a fantasia e imaginação, com produções inovadoras e como resultado, bilheterias astronômicas, sequências milionárias e o futuro da sétima arte.
Para o especialista em cinema Marcelo Ribaric, “O cinema é a arte de organizar as representações e significações”.
O espectador constrói a sua narrativa através das interpretações das imagens. As imagens, os signos, devem ser colocados em uma sequência para que o “leitor” saiba interpretar a história. Dentro da sala de cinema, o espectador entra em um “faz de conta” e acredita em tudo o que está acontecendo. A realidade transmitida pelo filme deve partir de elementos que o espectador reconheça do “hoje”, que são verdadeiros. Os objetos reconhecidos como verdadeiros nos são apresentados através da linguagem cinematográfica, dos elementos usados pra narrar a história (manipulação do tempo, planos, câmera).
David Cronenberg, diretor de cinema, disse em entrevista à revista Bravo, que “há coisas que funcionam bem em literatura e são impossíveis de transformar em cinema. É por isso que, em tantos filmes, você tem alguém lendo o livro para você: porque o diretor falhou em encontrar uma maneira de transformar aquilo em cinema”. Os elementos do cinema têm que convencer o espectador de que ele está inserido no filme, fazer com que esqueça a realidade e que a realidade passe a ser aquela que está acontecendo na sala de cinema.
O ser humano, à medida que foi desenvolvendo os meios de comunicação, foi se desnaturalizando, ficando cada vez mais deslocado da natureza. Essa teoria é defendida pelo filósofo tcheco, naturalizado brasileiro, Vilém Flusser, em seu livro “O mundo codificado” (2007).
Flusser analisa a comunicação através das “linhas e superfícies”.
As linhas são os discursos prontos; impõem ao pensamento uma estrutura específica na medida em que representam o mundo por meio dos significados de uma sequência de pontos, uma sequência histórica/linear.
As superfícies sempre representaram o mundo, por meio das imagens estáticas, estão nas telas de cinema, cartazes e páginas de revistas. A maneira de ler uma superfície é sincrônica, isto é, a partir de um contexto plano bidimensional. Isso implica uma maneira a-histórica de estar-no-mundo para aqueles que produzem e leem essas superfícies. Recentemente sugiram novos canais de articulação de pensamento (como filmes e TV), e o pensamento ocidental está aproveitando cada vez mais esses novos meios digitais.
Os novos meios incorporam as linhas na tela (superfície), elevando o tempo histórico-linear das linhas escritas ao nível da superfície. O espectador compreende o filme de uma maneira sincrônica e diacrônica ao mesmo tempo, pois é a junção da imagem e do movimento.
Flusser classifica os filmes como “uma sequencia linear de imagens”. A ideia entra em simetria com o pensamento de Marcelo Ribaric de que, quando estamos no cinema, nem percebemos que estamos dentro da história ali narrada. Enquanto “lemos” o filme, não percebemos isso acontecer, não percebemos que estamos lendo.
Lemos os filmes como uma série de imagens em movimento. O filme representa a projeção das coisas, e a leitura dos filmes se passa “dentro” das telas, como nas pinturas.
A linha escrita é uma imagem que se dirige para a primeira dimensão. O filme é uma imagem que já começa na segunda dimensão.
Filmes tridimensionais não introduzem a terceira dimensão, eles somente a projetam. O que torna o filme 3D é o fato de que filmes são fotografias que “falam”. Os filmes, em termos visuais, são superfícies, mas para o ouvido eles são espaciais. Podemos sentir fisicamente como o som, em filmes estereofônicos, introduz uma terceira dimensão na tela. É essa terceira dimensão que muda completamente o modo de ler as superfícies dos filmes.
O crítico de cinema (entre os mais influentes dos Estados Unidos, colunista do jornal Chicago Sun-Times), Roger Ebert publicou um artigo na revista Newsweek, abordando a tecnologia 3D. Para ele, o cinema 3D desperdiça uma dimensão, pois segundo ele, “nossas mentes usam o princípio da perspectiva para fornecer a terceira dimensão. Adicioná-la artificialmente pode tornar a ilusão menos convincente”. O crítico ainda menciona que o 3D não acrescenta nada à experiência, pois um bom filme é envolvente a ponto de não tornar perceptíveis suas características técnicas, e pode até ser uma distração, pois coloca somente alguns objetos em terceira dimensão.
Roger Ebert fez uma análise ácida sobre o filme Titanic, que recentemente foi relançado em 3D.
“Cameron tinha acabado de ser exaltado por ser um dos poucos diretores a usar o 3D sabiamente em ‘Avatar’ (2009). Mas ‘Titanic’ não foi filmado em 3D. Assim como você não pode embelezar um porco, não se pode tornar 2D em 3D. (…) O 3D proporciona uma notável perda de brilho na tela – alguns dizem que 20% a menos de brilho. Se você visse um filme ordinário que esmaeceu de tal forma, talvez reclamasse com a gerência do cinema. Mas com ‘Titanic’ você supostamente deve se sentir grato pela oportunidade de pagar uma sobretaxa por essa desfiguração. Se você estiver alerta a isso, você notará que vários planos e sequências nesta versão nem sequer estão em 3D, mas continuaram em 2D. Se você tirar seus óculos, as imagens saltarão da tela com uma melhora dramática no brilho. Eu sei o motivo do filme ser em 3D. É para justificar a sobretaxa. É um jeito pobre de se tratar uma obra-prima”, escreveu Ebert, indignado.
O diretor de cinema Tim Burton disse, em entrevista à revista Época, achar “um pesadelo” o uso de tantas tecnologias no filme “Alice no País das Maravilhas”.
“Eu não gosto de efeitos especiais. Mas decidimos que animaríamos os personagens no computador a partir da atuação de pessoas reais. Foi muito difícil para mim porque nunca tinha feito um filme assim. Não é inspirador trabalhar sobre um fundo verde que deixa você enjoado. É um processo estúpido, como um pesadelo. Acabou sendo um filme de animação na maneira como foi feito”.
Em 3D, a profundidade chega a confundir o espectador, perdido na enxurrada de detalhes das cenas. O aspecto tridimensional foi produzido posteriormente, no estúdio. “A escolha pela filmagem em 2-D se deve ao curtíssimo prazo que tivemos para sua realização”, disse o diretor.
Segundo o crítico Roger Ebert, Tim Burton fora pressionado pelo estúdio a adaptar o filme. Talvez tenha se deixado levar pelas exigências contratuais.
Neste ano, grandes produções foram premiadas, e outras estréiam nos cinemas. “As aventuras de Pi”, ganhador de quatro estatuetas do Oscar: de fotografia, efeitos visuais, melhor diretor e trilha sonora. Segundo o crítico de cinema Rubens Ewald Filho, Ang Lee tenta expandir as fronteiras da terceira dimensão em um filme não comercial. O filme tinha tudo para ser um fracasso, mas estourou bilheterias e agradou os críticos, pois soube equilibrar o efeito 3D e a intensa animação digital.
Nic Knowland, diretor de fotografia, afirma que o 3D não o empolgou. "Pode oferecer algum valor de produção e escala para alguns tipos de filmes. Mas, para muitos filmes oferece apenas distração e algumas experiências bem desconfortáveis para o público", disse. "Ainda não encontrei um diretor de fotografia que seja realmente entusiasmado com isso", acrescenta.
Filmes em 3D devem ser criados, escritos e pensados para as três dimensões. A indústria cinematográfica utiliza desse recurso para entreter o público de uma maneira supostamente inovadora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário